DIÁRIO DE UM CINÉFILO |
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Comentários sobre filmes por Ailton Monteiro, cinéfilo de Fortaleza.
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Domingo, Julho 05, 2009
MARIA RITA NO PARQUE DO COCÓ – 04 DE JULHO DE 2009 ![]() Com o anúncio do nome de Maria Rita na programação de férias do Governo do Estado, não quis perder um show que normalmente me custaria uns duzentos reais. Não é todo dia que a gente pode ver um show desses de graça. Maria Rita é, ao lado de Marisa Monte e Maria Bethânia, uma das poucas estrelas da música brasileira que se dá ao luxo de cobrar tanto pelo seu show. Assim como Marisa Monte, Maria Rita já nasceu estrela. E talvez seja a única grande estrela que essa década de vacas magras na música produziu no Brasil. Minha aproximação com a música da cantora se deu via Los Hermanos. Em seu disco de estreia, MARIA RITA (2003), ela gravou duas composições de Marcelo Camelo: a inédita "Cara valente" e a já conhecida "Veja bem, meu bem". "Cara valente" acabou se tornando o maior hit da cantora, ao lado de "Encontros e despedidas", que teve uma ajudinha da Rede Globo, já que foi tema de abertura de uma telenovela. A chuva que tem caído em Fortaleza nos últimos dias – ou desde o começo do ano, melhor dizendo - foi um dos ingredientes para que o show de ontem fosse memorável. Quando a chuva começa, ela incomoda, mas depois que já estamos molhados mesmo, o negócio é relaxar e curtir. Eu até diria que sem a chuva, a noite de ontem não teria sido tão boa. Mesmo não estando no meu habitat natural, que seria talvez um show de rock, o fato de estar razoavelmente bem de saúde (a garganta estava um caco, mas já esteve pior) e de estar na companhia de amigos e de bom humor tornou tudo muito melhor. Claro que a boa qualidade do som também contribuiu. Groovetown, a banda cearense que abriu o show para a Maria Rita fez um belo trabalho. Quando eles emendaram "Samba a dois" com "Olhos coloridos" e, mais na frente, quando eu, Valéria, Murilo e Norent fomos pra mais perto do palco, eu até me esqueci do show da Maria Rita. Por um momento, fiquei me perguntando se não foi a massagem relaxante que eu recebi à tarde que contribuiu para esse meu estado de descontração. Primeira vez que recebi esse tipo de massagem e nem gostei tanto, pois não relaxei de verdade, mas quem sabe algumas toxinas não foram liberadas no processo? Uma das diversões da noite foi ver o rapaz francês amigo da Val, o Norent, tentando chegar junto de uma loirinha linda que estava na nossa frente. E falando em mulher bonita, chegou o momento da entrada triunfal de Maria Rita. Não imaginei que ela fosse tão gostosa. Ela entrou com um vestido curto, prateado, e de salto alto. Demorou um pouco pra eu me acostumar com as coxas da cantora. E ela, sabendo o frisson que causa, não deixa de explorar o próprio corpo e a sensualidade para incorporar uma personagem cheia de autoconfiança. Isso, sem deixar de lado a honestidade, contando que estava gripada e tossindo, e pedindo a ajuda da plateia, no caso de a voz dela falhar. A primeira parte do show foi puramente de samba. Seu terceiro disco, SAMBA MEU (2007), foi dedicado exclusivamente ao ritmo que hoje é mais associado aos cariocas. O que me deixou sem conhecer cerca de noventa por cento do set list e ficar esperando que ela cantasse algumas do primeiro disco, que foi o que eu mais ouvi. Mas o melhor momento da noite surgiu com "Muito pouco", composição do Moska para o álbum SEGUNDO (2005). Foi um desses momentos em que até quem não estava nem aí para o show ficou impressionado com a performance da cantora. Com essa canção, em particular, o contrabaixo acústico apareceu de maneira muito mais elegante. Sem dúvida, o ponto alto da noite. Mas o momento de maior participação do público foi mesmo com "Cara valente". Só acho que ela errou ao cantar essa mesma canção no bis, como se não tivesse outra no repertório. Aliás, foi a única do Camelo que ela cantou no show inteiro. Seria lindo se, em plena chuva, ela cantasse a bela e melancólica "Santa chuva". Mas claro que o saldo foi positivo e, mesmo encharcado, voltei pra casa bem satisfeito. Outros amigos que estiveram no show também, mas que o assistiram em outro local do Parque do Cocó: Ebenézer, Santiago, Ariza, Paulo, Rodrigo e Elis. A título de curiosidade, link para o twitter da cantora, onde ela fala um pouco sobre o show em Fortaleza. Sexta-feira, Julho 03, 2009
OS FALSÁRIOS (Die Fälscher) ![]() Houve um tempo em que todos os indicados ao Oscar de filme estrangeiro chegavam aqui sempre no mesmo ano da indicação. Cheguei a pegar um ano em que todos os filmes chegaram no próprio mês da premiação. Agora, tanto faz se o filme ganhou ou não a Palma de Ouro em Cannes ou ganhou o prêmio de melhor filme estrangeiro da Academia que não parece fazer muita diferença para o mercado. O vencedor do Oscar de filme estrangeiro deste ano até que chegou rápido no circuito – o japonês A PARTIDA. Mesma sorte não teve este OS FALSÁRIOS (2007), que a gente até entende ter ganhado o prêmio, dado a temática. Costuma-se dizer que filme que fala sobre o holocausto sempre sensibiliza a Academia. E parece que com esta produção austríaca não foi diferente, por mais que o filme não tenha me agradado. Até prefiro A VIDA É BELA, mesmo com todas as restrições que tenho à obra de Roberto Benigni. Pelo menos ele não é tão burocrático quanto OS FALSÁRIOS. Só a título de curiosidade, pois minha memória tem deixado cada vez mais de dar prioridade ao Oscar, fui pesquisar os concorrentes de OS FALSÁRIOS na época da premiação para ver se algum deles chegou ao circuito nacional. Vi que aquele que tinha o título mais chamativo (MONGOL) e de uma localidade que já vinha sendo alvo de piada por causa de BORAT (o Cazaquistão) será lançado nos cinemas em breve como O GUERREIRO GENGIS KHAN, título que ajuda o espectador a saber mais ou menos do que se trata o filme sem precisar de ler uma sinopse. Outro que se eu não me engano já foi lançado aqui foi KATYN, do polonês Andrzej Wajda, que por alguma razão não é um cineasta que me atrai, mesmo no auge de sua popularidade no circuito alternativo, que foi no fim dos anos 80 e início dos 90. Os outros – o israelense BEAUFORT e o russo 12 -, acredito que não entraram no circuito brasileiro. Toda essa introdução é só pra enrolar mesmo, já que eu não tenho muito do que falar sobre OS FALSÁRIOS, que me causou mais sono do que qualquer outra coisa. Engraçado que tem filmes que têm até mais potencial para me deixar com sono, mas só pelo fato de eles serem um pouco mais diferentes, eu fico mais interessado – caso do brasileiro BUDAPESTE, do qual devo falar aqui em breve. Já OS FALSÁRIOS tem uma estrutura narrativa clássica e manjada. Um filme feito para agradar aos votantes do Oscar, mais do que para agradar a público de festivais ou de mostras internacionais. Porém, mesmo dentro dessa estrutura convencional, bem que o filme poderia trazer mais interesse, já que não creio que tenha se esgotado o tema. No caso de OS FALSÁRIOS, vemos um grupo de judeus que são especialistas em falsificações. Eles conseguem falsificar a libra e o protagonista, o grande perito na "arte", está se esforçando para falsificar o dólar e isso chama a atenção dos nazistas, desejosos de lucrar com a falsificação, mesmo sabendo que os russos estão avançando e o fim para eles parece estar próximo. Entre o fato de fazer um trabalho para os nazistas, de estar indo contra a própria ideologia e sabendo de todas as atrocidades que os seus inimigos cometeram com familiares e amigos, e a vontade de sobreviver há uma tênua linha. E é nesse embate emocional que o filme busca refúgio. Pena que os personagens não tenham muita força para nos importarmos suficientemente com eles, o que prejudica ainda mais a apreciação. Stefan Ruzowitzky é diretor do horror ANATOMIA (2000), que foi lançado direto em vídeo no Brasil e aparentemente não fez muitos fãs. Quinta-feira, Julho 02, 2009
AMOR, SUBLIME AMOR (West Side Story) ![]() Bacana essa coleção Cinema Reserve que a Fox tem lançado, preservando o título original e com uma elegante luva. Dos DVDs duplos da coleção, não sei quais são inéditos e quais trazem os mesmos extras já lançados em outras edições. No caso de AMOR, SUBLIME AMOR (1961), parece que os extras são os mesmos da edição anteriormente lançada. O diferencial está mesmo no visual, mais bonito. Quanto ao filme, o fato de eu não tê-lo visto há mais tempo se deve à minha resistência aos musicais clássicos. São raros os que me emocionam. No caso da oscarizada produção de Robert Wise e Jerome Robbins (10 Oscar de 11 indicações!), o que me impulsionou a comprá-la foi a presença de Natalie Wood, a grande estrela do filme. Pena que o seu potencial sensual não é bem aproveitado e ela é mostrada ainda como uma moça ingênua num romance água com açúcar. Mas até que ela está bem no filme, caracterizada como uma porto-riquenha, mesmo exagerando um pouco no sotaque. Conta-se que ela estava muito nervosa e insegura durante a produção e não ficou muito feliz quando arrumaram uma dubladora para ela nas cenas cantadas, já que ela se esforçou muito e cantou de verdade em todas as cenas. A ideia de se fazer uma versão musical de "Romeu e Julieta" se passando nas ruas, com uma disputa entre gangues de americanos contra porto-riquenhos, é até boa. E se deu certo na Broadway, deu mais ainda em Hollywood. Quer dizer, deu certo no sentido de que rendeu muita bilheteria, tornou-se popular e ganhou muitos Oscar. Porque, sinceramente, eu não gostei do resultado final. Aquele "Romeu", o Tony (Richard Beymer), é muito xarope. E chega uma hora que enche o saco quando o vemos pela enésima vez dizer "I'm in love", com aquela cara de babaca. E as cenas mais românticas, envolvendo Maria e Tony acabaram ficando menos interessantes do que as cenas muito mais elaboradas das gangues em coreografias ousadas, que devem agradar bastante aos apreciadores de dança – o que não é bem o meu caso. Conta-se que Jerome Robbins, o coreógrafo que, com toda razão, quis assumir a função de co-diretor do filme, ensaiava tanto em busca da perfeição que deixava os atores no seu limite. Um deles, inclusive, chegou a desmaiar durante os exaustivos ensaios e foi levado às pressas para um hospital. E como Robbins era muito perfeccionista, isso acabou esticando demais o tempo das filmagens. Tanto que, em certo momento, ele foi afastado da produção e Robert Wise assumiu a direção sozinho do que faltava. Tudo isso é contado no bom documentário de quase uma hora presente nos extras, intitulado "Memórias de West Side". Eu, inclusive, diria que o doc é melhor do que o filme, que poucas vezes me agradou. Entre os melhores momentos, destaco "America", com um belo duelo cantado (e dançado) entre os homens e as mulheres porto-riquenhas. Os homens, falando das desvantagens de estar num país estrangeiro; elas, enaltecendo o país que os acolheu. A canção é provavelmente a mais conhecida do filme. Outra bem conhecida é "Somewhere", que ficou meio brega na versão do filme, mas trata-se de uma bela canção, com um arranjo instrumental lindo e que pode ser bem melhor apreciada na voz de Renato Russo, no disco STONEWALL CELEBRATION CONCERT. E as outras canções famosas do filme são "Tonight" e "Maria". Todas elas são de autoria de Leonard Bernstein e com letras de Stephen Sondheim. Aliás, as canções já eram conhecidas quando o filme chegou aos cinemas e foi um sucesso, pois durante o filme a plateia cantava junto, o que deve ter gerado sessões memoráveis na época. E por mais que se diga que o musical foi inovador ao misturar dança com lutas de rua, eu diria que o filme ainda surgiu num momento em que Hollywood ainda não tinha abraçado a contracultura. A deixa de Nicholas Ray, com JUVENTUDE TRANSVIADA, não foi assimilada de imediato pela moribunda Hollywood da época. E o filme não consegue disfarçar sua caretice, mesmo com suas inovações. Mas talvez porque ainda não era o momento e preciso me lembrar que a primeira metade dos anos 60 ainda se caracterizava por uma certa inocência. A título de curiosidade, fazendo um paralelo entre AMOR, SUBLIME AMOR e ROMEU E JULIETA, de George Cukor, dá pra perceber que em ambas as gangues havia um gay. O Mercutio de John Barrymoore é bem afetado. Já no musical, há a personagem de uma jovem que se veste de homem e que quer ficar o tempo todo com os rapazes, ainda que fosse geralmente enxotada, principalmente nos momentos de perigo. Das duas gangues, a turma dos porto-riquenhos sai ganhando graças à performance de George Chakiris, o líder do grupo hispânico. Ele dança com uma leveza e uma elegância que chegou a ser comparado a Fred Astaire. Do lado dos porto-riquenhos também há Anita, a personagem mais forte do filme, interpretada por Rita Moreno. Ela é tão boa atriz que até destoa dos demais, inclusive de Natalie Wood. Quanto aos demais extras, há uma montagem comparativa de storyboards com imagens do filme que ajuda a valorizar a bela construção visual de Robert Wise. Há também o tema que tocou durante o intervalo do filme na época da exibição nos cinemas e alguns trailers. Mas o que conta é mesmo o documentário. Quarta-feira, Julho 01, 2009
DUPLICIDADE (Duplicity) ![]() Hoje começam minhas férias. Se no ano passado eu tirei férias para reformar/ampliar o meu quarto, neste ano as férias são para estudar para minha especialização. Portanto, não sei se o blog manterá a mesma regularidade durante este mês de julho que se inicia. De todo modo, ando passando por umas "crises de blogueiro". Tenho suspeitado que meus mais recentes textos estejam um pouco enfadonhos, por mais que eu tente melhorá-los a cada releitura. Talvez eu tenha perdido um pouco da fluidez e um pouco da capacidade de incitar os leitores. Mas quero acreditar que isso é só uma fase, pois se eu desistir disso aqui, talvez não volte mais. O fato é que tem dias que eu me esforço para escrever sobre um filme. E fico até feliz quando consigo escrever o mínimo, que são três parágrafos, nem que sejam curtos. E quando eu acho que não vou conseguir e o texto fica pelo menos razoável, aí que eu vejo motivo para comemorar mesmo. De qualquer maneira, quero deixar registrado aqui que quem está escrevendo estas linhas é alguém que está com o corpo todo moído e que tem sofrido com dores nas costas há dias. Ontem fui a um ortopedista e ele me passou uns exames. Mas creio que o um maior afastamento do ar condicionado nesses dias longe do escritório vão me fazer bem e em breve estarei com todo entusiasmo para resolver uma série de pendências. O carro, que é quase uma extensão de mim, também está precisando de cuidados e preciso estar bem disposto para cuidar de assuntos que não são exatamente divertidos para mim. E agora que já gastei um parágrafo inteiro usando o blog como divã, vamos ao filme em questão. DUPLICIDADE (2009), segunda incursão na direção de Tony Gilroy, foi uma decepção pra mim. Gostei bastante da classe e do suspense de CONDUTA DE RISCO (2007), o filme anterior do diretor, e também estava esperando que a química entre Julia Roberts e Clive Owen – juntos novamente, depois de CLOSER – seria mais um ponto a favor. No elenco de apoio, os ótimos Tom Wilkinson e Paul Giamatti, infelizmente em papéis ridículos. Não basta o filme ter elegância na fotografia, na direção de arte, na beleza das locações, nos figurinos e em pequenos detalhes como o dos créditos iniciais. Tudo isso é muito bom e muito agradável de ver, especialmente na telona do cinema, mas não é disso que se faz um bom filme. Sem o esqueleto – roteiro e direção -, fica difícil um filme funcionar, por mais luxuoso e vistoso que seja. E assim é DUPLICIDADE: uma farsa elegante, mas vazia. Que em vez de trazer prazer para o espectador, com sua narrativa intrincada e cheia de vaivéns, provoca aborrecimento e indiferença com o destino dos personagens. A trama gira em torno do relacionamento entre dois ex-agentes federais. Julia Roberts já foi agente da CIA; Clive Owen é ex-MI-6. Os dois têm um plano para ganharem uma bolada, trabalhando como espiões de duas grandes corporações, e assim poderem viver uma vida de reis. Na sua maior parte, o filme parece utilizar a ideia de macguffin. Não sabemos de que tratam os tais documentos confidenciais que fazem o filme girar. Não deixa de ser interessante a escolha do diretor pela leveza, até mesmo na disputa entre as duas empresas. Diferente do que aconteceria numa comédia dos irmãos Coen, por exemplo, DUPLICIDADE não segue um rastro de mortes. Por mais que as empresas não joguem limpo, o máximo de violência que o filme mostra é uma cena num aeroporto, com os chefes Paul Giamatti e Tom Wilkinson trocando acusações em câmera lenta. Isso necessariamente não chega a ser um problema em si, mas não evita o filme de ser bobo e lamentável. Terça-feira, Junho 30, 2009
LOUCA PAIXÃO (Turks Fruit) ![]() O que aconteceria se Paul Verhoeven, o "o holandês maluco", filmasse uma história de amor? O resultado pode ser conferido em LOUCA PAIXÃO (1973), um dos melhores trabalhos da fase holandesa do cineasta. Quem está acostumado com o cinema de Verhoeven, repleto de sexo, sangue e violência, pode prever o que seria um romance com a sua marca. Em seu filme, os momentos de ternura tangenciam a escatologia. O casal vivido por Rutger Hauer e a bela ruivinha Monique van de Van desde o momento em que se conhecem passam por situações que o diretor não tem o menor pudor em tornar explícitas. Ela dá carona a ele, os dois batem o carro. Antes disso, ele passa por uma situação embaraçosa, quando prende o pênis no zíper e sai em busca de um alicate numa casa próxima. No dia do casamento dos dois, uma mulher grávida, que também está no grupo dos vários que vão se casar, sente dores e, pelo sangue no vestido branco, parece estar perdendo uma criança. Em outra sequência, a ruiva chora no banheiro, achando que suas fezes vermelhas são sinal de que está com uma doença grave. Ele examina as fezes com as mãos, as cheira e vê que é resultado da alimentação com beterraba. Tudo isso, que pode parecer nojento, é mostrado até com certa ternura. Mas uma ternura à maneira de Verhoeven, não havendo espaço para lágrimas ou algo do tipo. O que não significa que a paixão que ele nutre por ela não seja verdadeira. Na verdade, sentimos um pouco de sua dor no momento em que ela o trai, numa cena com os familiares dela reunidos numa mesa, rindo de forma escarnecedora. A cena mais parece um pesadelo. Monique van de Ven se destaca como uma das mais belas musas dos filmes de Verhoeven. E isso não é pouco, levando em consideração as inúmeras beldades que abrilhantaram os trabalhos do diretor. É que ela tem uma aura de doçura que a destaca. Consta que a moça se casou com o diretor de fotografia do filme, Jan de Bont, em 1973. Não sei se eles se conheceram antes ou durante as filmagens. O fato é que era sua estreia no cinema e seu nome já se destacava mais do que o nome de Rutger Hauer. Os dois repetiriam a parceria no trabalho seguinte de Verhoeven, O AMANTE DE KATHY TIPPEL (1975). A maneira como ela é apresentada no filme é um verdadeiro sonho para aqueles que gostam de fantasiar. Sem muita cerimônia, o sujeito faz um elogio ao seu cabelo e pergunta se embaixo é vermelho também. Isso normalmente seria visto como uma ofensa, um ultraje, em algum filme americano. Mas na Holanda as coisas devem ser bem diferentes, a julgar pelos filmes de Verhoeven. A moralidade é outra e o cineasta faz questão de colocar os personagens nus ou fazendo sexo em lugares públicos ou de modo a ofender a instituição familiar, praticamente negada ou desrespeitada em toda a obra de Verhoeven. Um ponto bem positivo em LOUCA PAIXÃO é a forma como o filme nos surpreende, através da técnica de criar falsas expectativas, dado o prólogo violento e que parece prenunciar uma história de ódio e vingança, ao mostrar o personagem de Hauer de maneira pouco simpática e até de natureza aparentemente sociopata. Rutger Hauer interpreta um artista plástico sem nenhum problema de autoestima. Para ele, é fácil levar qualquer mulher para a cama. Seu personagem vai ganhando a simpatia do público aos poucos. No início, há um certo distanciamento. A empatia com o público chega com a dor de cotovelo e chega próximo da compaixão no ato final, tão lírico quanto Verhoeven é capaz de ser. Vai ver, no fundo, o cineasta, nascido sob o signo de câncer, é um grande romântico que se recusa a demonstrar. Prefere levar a fama de cínico e rude. Segunda-feira, Junho 29, 2009
JEAN CHARLES ![]() Um filme bem frágil na dramaturgia, especialmente nas tentativas nem sempre bem sucedidas de emocionar, mas que tem uma narrativa envolvente e desperta a simpatia da audiência, muito por causa da presença de Selton Mello. Apesar da fragilidade dramática, JEAN CHARLES (2009) tem os seus momentos. Gosto especialmente da cena de Jean ligando para a mãe, no Brasil, informando que só poderá enviar o dinheiro no próximo mês. A cena dos três amigos chorando a morte do companheiro, perto do final, também chega a ser emocionante. Na maioria das vezes, contudo, as tentativas de Henrique Goldman de causar comoção na audiência é frustrada e forçada. Mesmo assim, o filme funciona tanto como retrato da situação dos imigrantes ilegais em Londres como da tragédia de repercussão internacional envolvendo o brasileiro Jean Charles de Menezes, morto pela polícia inglesa, ao ser confundido com um suspeito de terrorismo, durante um período de ataques às estações de metrô da capital britânica em 2005. O diretor Henrique Goldman e o roteirista Marcelo Starobinas fizeram um trabalho de investigação antes de montar o roteiro. Um dos pontos positivos do filme foi o de mostrar um aspecto não tão agradável para a família de Jean Charles, que é o seu envolvimento com a emissão de passaportes ilegais. Mas que bom que havia isso para trazer mais emoção à trama. Imaginem se o filme só mostrasse o rapaz trabalhando e depois sendo morto. Só um grande cineasta conseguiria tirar algo bom de uma trama tão simples. Goldman usa um registro de ficção convencional com a utilização de imagens de arquivo de noticiários televisivos britânicos. Selton Mello, mesmo com sua persona forte, tem um carisma natural e traz entusiasmo para o filme. A jovem Vanessa Giácomo também consegue se destacar, especialmente nas cenas onde aparece sozinha. O que mais nos deixa indignado é o fato de Jean Charles ter morrido com sete tiros na cabeça. O que demonstra uma brutalidade que não encontra justificativa, mesmo num cenário tenso de guerra ao terrorismo. Se o filme passasse com mais força essa indignação, com certeza ganharia mais respeito, tanto do público quanto da crítica. No lugar da indignação, o que mais fica é a tristeza, um sentimento de passividade e conformação diante da tragédia. Felizmente, o epílogo, que se passa depois de três anos da tragédia, dá sentido à trama e tem um ar poético. Outro ponto alto do filme é a participação de Sidney Magal, cantando num show para brasileiros em Londres o clássico "O meu sangue ferve por você", que tanto embalou a minha infância. Lendo uma entrevista de Henrique Goldman, soube que o que ocorreu na verdade foi que Jean Charles deu um jeito na aparelhagem de som de uma apresentação de Zeca Pagodinho, que até foi convidado para o filme, mas não pôde participar. A substituição por Magal não poderia ser mais acertada, tornando tudo mais divertido, especialmente quando vemos Selton Mello cantando a plenos pulmões junto com o público essa bela canção, tão carregada de latinidade, cafonice e paixão. Sábado, Junho 27, 2009
O MISTÉRIO DO Nº 17 (Number Seventeeen) ![]() E eu que estava achando que não tinha mais tanto filme ruim de Alfred Hitchcock antes de eu chegar nas pérolas de sua filmografia. Quem pensa que a fase britânica do mestre do suspense foi tão boa quanto a americana é porque ou não conhece os filmes ou quer parecer diferente. O MISTÉRIO DO Nº 17 (1932) é um dos filmes que eu acreditava ser mais divertidos dessa fase inglesa, já que de acordo com François Truffaut, o problema do filme era aparentemente a trama confusa, coisa que geralmente não me incomoda muito, principalmente quando eu já estou psicologicamente preparado para uma narrativa sem pé nem cabeça. Mas isso é algo que definitivamente não combina com Hitchcock, principalmente quando ele se mostra claramente desinteressado pelo projeto, empurrado à força para ele pela produtora britânica, que não sabia valorizar o diretor. Depois do fracasso comercial do interessante RICH AND STRANGE (1931), que era um trabalho que dá pra sentir que foi feito com gosto pelo cineasta, os produtores quiseram compensar as perdas com um trabalho mais barato e mais comercial. Acho que de tanto ele se dar mal com a produtora, O MISTÉRIO DO Nº 17 foi a gota d’água: o último filme de Hitchcock para a British International Pictures. Achei até que ele demorou demais para encerrar o contrato com essa companhia. A única qualidade de O MISTÉRIO DO Nº 17 é a sua curta duração: pouco mais de uma hora. Se fosse um longo filme, com certeza estaria entre as piores obras de Hitchcock, junto com CHAMPAGNE (1928), JUNO AND THE PAYCOCK (1930) e, pelo que dizem, VALSAS DE VIENA (1933), que ainda não vi e é o próximo da lista. (Medo.) Nas palavras do próprio Hitchcock para Peter Bogdanovich, ao falar de O MISTÉRIO DO Nº 17: "o filme era horrível"; para Truffaut: "um desastre". Claro que nem sempre temos que concordar com os próprios diretores quando eles falam de suas obras, mas aqui definitivamente é o caso. Uma coisa positiva no filme é que em certo ponto pode ser um precursor da comédia O TERCEIRO TIRO (1956), já que ele começa com um suposto cadáver, que depois desaparece. O que também é lembrado no filme como um de seus pontos altos é a cena da perseguição entre um ônibus e um trem, claramente duas maquetes, disfarçadas apenas pela fotografia em preto e branco em tom escuro. Mas até chegar nessa sequência, o filme exibe um ar de teatralidade que é um passo atrás do mestre, depois da graça e do esforço de fazer cinema de verdade que foi RICH AND STRANGE. O MISTÉRIO DO Nº 17 é mais um título a macular a felizmente vasta filmografia do mestre, que, ainda bem, não se deixou abalar por essa má fase e continuou perseguindo o seu melhor. |